Michael Ryan
Respigar
O que foi que eu fiz ao dia de festa,
como uma flor deitada à beira do morto
imagina como morro
familiarmente e devagar,
devagar celebra – de ontem – o acerbo
e deseja relâmpago
a terra ou eu a tua água
aveludada sede
o poema
meu
esse pomar no filão de sóis
entardecendo-nos lado a lado,
e a vontade: não, não
chegar o quanto antes
a esse lado que nos traz ioiô;
ali o boomerang-amor
impedindo-nos a fuga fácil
a esse fluxo de fastio,
e a surpresa reacendo-nos
os olhos e o ventre
lado a lado: o gozo da caça,
os risos das noites de chuva arrancando
da puberdade o mar,
o coração exposto ao veneno
múltiplo das palavras
e, no grupo de cães, as cadelas
lambiam o próprio pêlo e o sexo
e bailavam atrás de nenhum rabo
e estabeleciam o preceito
e a intensidade da dentada
e o tão profundo medo de olhar
o sol vazado sob a areia,
veias de terror, as pegadas
tatuando dias e noite:
até morrerem – deslumbradas –
com a carne;
e a dor fecunda como a lua,
no seu movimento peculiar,
os olhos da infância,
o gozo e o riso dos olhos da infância
extinguindo-nos
diamante o sentido livre;
e o imprevisto viveu outra vez
a carne, o frio, e neles a ficção
ficando aquém de todo o sangue -
esse momento disseminando-nos
em agora: bailarina ou soldado,
e a metáfora embala, lambe
o coração em bala mata
o impossível nas forças armadas
e as nossas forças blindadas,
de visita ao corpo de batalha;
outra vez, já enternecido desse dia, fica
segando inevitáveis colmeias ou o coração
escorrendo ou discorrendo
– o quanto gostes –
exclui o mel – sem esquecer – o quase
familiar compacto
adoecer da noite.
No, no. Yo no pergunto, yo deseo.
Lorca
Lorca
Respigar
O que foi que eu fiz ao dia de festa,
como uma flor deitada à beira do morto
imagina como morro
familiarmente e devagar,
devagar celebra – de ontem – o acerbo
e deseja relâmpago
a terra ou eu a tua água
aveludada sede
o poema
meu
esse pomar no filão de sóis
entardecendo-nos lado a lado,
e a vontade: não, não
chegar o quanto antes
a esse lado que nos traz ioiô;
ali o boomerang-amor
impedindo-nos a fuga fácil
a esse fluxo de fastio,
e a surpresa reacendo-nos
os olhos e o ventre
lado a lado: o gozo da caça,
os risos das noites de chuva arrancando
da puberdade o mar,
o coração exposto ao veneno
múltiplo das palavras
e, no grupo de cães, as cadelas
lambiam o próprio pêlo e o sexo
e bailavam atrás de nenhum rabo
e estabeleciam o preceito
e a intensidade da dentada
e o tão profundo medo de olhar
o sol vazado sob a areia,
veias de terror, as pegadas
tatuando dias e noite:
até morrerem – deslumbradas –
com a carne;
e a dor fecunda como a lua,
no seu movimento peculiar,
os olhos da infância,
o gozo e o riso dos olhos da infância
extinguindo-nos
diamante o sentido livre;
e o imprevisto viveu outra vez
a carne, o frio, e neles a ficção
ficando aquém de todo o sangue -
esse momento disseminando-nos
em agora: bailarina ou soldado,
e a metáfora embala, lambe
o coração em bala mata
o impossível nas forças armadas
e as nossas forças blindadas,
de visita ao corpo de batalha;
outra vez, já enternecido desse dia, fica
segando inevitáveis colmeias ou o coração
escorrendo ou discorrendo
– o quanto gostes –
exclui o mel – sem esquecer – o quase
familiar compacto
adoecer da noite.
(...) Continua ...
4 comentários:
Poeta e por aqui passo. recomendo-lhe a leitura de um poema que acabo de inserir no meu blog: " Viajem a Frankfurt."
Um abraço:
L.C.
Ilustraria extraordinariamente bem As Respigadeiras de Jean-François Millet.
E também não ficaria mal, lido em fundo para algumas das imagens do filme de Varda,Os Respigadores e a Respigadora.
É a minha opinião.
Madalena S.
O Título e o fio condutor deste exercício vêm exactamente dessas duas Obras-Primas que refere.
Escolhi o quadro de Michael Ryan pelo olhar interior de quem abre a pele, como que, para acreditar melhor em si... em tudo.
Vale. Y Obrigada.
E aqui venho mais uma vez, a este excelente espaço poético, para lhe recomendar a leitura de um magnífico poema de Tomas Tranströmer: FUNCHAL, traduzido por mim, eque se encontra a partir deste momento no meu blogue.
Um abraço:
L.C.
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